ARTIGO: Entendendo dos os movimentos sociais brasileiros: manifestações
populares de meados de 2013.
Autor: Miguel Felipe Gomes da Trindade
RESUMO
O ano de 2013 deve ficar marcado na História do Brasil como o ano das reivindicações e protestos populares em massa. Os levantes iniciaram motivados principalmente pela alta no preço das passagens do transporte, a falta de transparência das planilhas de rentabilidade das empresas de ônibus coletivo e a falta de qualidade nos transportes de massa. A partir dessas ocorrências as manifestações populares ganharam novos ares, ampliando-se, trazendo novas e diversas pautas de reivindicações. O artigo traz toda uma reflexão objetivando o entendimento desse cenário inesperado de protestos populares, pontuando entre as diversas pautas, o que de fato é essencial e emergencial para a população, tentando enxergar os interesses e insatisfações mais imediatas. O artigo traz ainda os links que os jovens tem demonstrado fazer, entre a falta de um sistema de educação de excelência com outros problemas tais como: o crescimento da violência, da desigualdade, do preconceito e do desemprego.
O ano de 2013 deve ficar marcado na História do Brasil como o ano das reivindicações e protestos populares em massa. Os levantes iniciaram motivados principalmente pela alta no preço das passagens do transporte, a falta de transparência das planilhas de rentabilidade das empresas de ônibus coletivo e a falta de qualidade nos transportes de massa. A partir dessas ocorrências as manifestações populares ganharam novos ares, ampliando-se, trazendo novas e diversas pautas de reivindicações. O artigo traz toda uma reflexão objetivando o entendimento desse cenário inesperado de protestos populares, pontuando entre as diversas pautas, o que de fato é essencial e emergencial para a população, tentando enxergar os interesses e insatisfações mais imediatas. O artigo traz ainda os links que os jovens tem demonstrado fazer, entre a falta de um sistema de educação de excelência com outros problemas tais como: o crescimento da violência, da desigualdade, do preconceito e do desemprego.
Palavras-chave: Movimentos Sociais, Rede Social, Manifestação.
Introdução
A sociologia sendo a ciência que estuda a sociedade e as regras de seu
funcionamento nos traz, através de seus conceitos, teorias e métodos, um
excelente instrumento de compreensão das situações que ocorrem no cotidiano da
vida e de si mesmas como seres inevitavelmente sociais. Segundo Rafael Araújo, coordenador da Escola de
Sociologia e Política de São Paulo e professor da PUC-SP, "Ela avalia a
interação entre os indivíduos e seus desdobramentos na formação de grupos,
associações e instituições".
Através das observações pontuadas por cientistas sociais é que objetivamos aqui traduzir os nuances das manifestações desencadeadas em meados de 2013.
O ano de 2013 deve
ficar marcado na História do Brasil como o ano das reivindicações e protestos
populares em massa. Para surpresa de todas as esferas do governo, quanto da
população, as insurreições destacam-se não somente por acontecer nas capitais
de nosso país, como também no interior, trazendo uma inesperada quantidade de
manifestações, de diferentes reivindicações e de grande volume de manifestantes
engajados na luta.
Os levantes iniciaram
motivados principalmente pela alta no preço das passagens do transporte, a falta
de transparência das planilhas de rentabilidade das empresas de ônibus coletivo
e a falta de qualidade nos transportes de massa. Reconhecidamente liderada por
grupos estudantis. Contudo, as manifestações populares ganharam novos ares,
ampliando-se, trazendo novas e diversas pautas de reivindicações, até se tornar
um dos mais impressionantes movimentos vistos ate hoje no Brasil.
A priori, entender todo esse cenário
inesperado de protestos populares, parece ser tarefa fácil para um país que
ainda tem tanto por fazer e consolidar. Contudo, apesar de todas as
reivindicações serem importantes e relevantes para cada cidadão que foi a luta,
pontuar dentre as diversas pautas, o que de fato é essencial e emergencial para
a população, ou seja, seus interesses
e insatisfações mais imediatos, constituem-se como algo mais
complexo a ser estudado.
Em pesquisa realizada pelo IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada,
sobre as prioridades dos jovens brasileiros, o item mais citado
pelos jovens foi educação de qualidade (85,2%), seguido pela melhoria dos
serviços de saúde (82,7%). O instituto consultou jovens com idade de 15 a 29
anos, solicitando para cada entrevistado escolher, entre 16 temas, os seis que
seriam prioritários. O método é o mesmo utilizado pela Organização das Nações
Unidas (ONU) na pesquisa My World, cujo objetivo é subsidiar a definição das
novas Metas do Milênio, a partir de 2015. A terceira opção mais citada pelos
jovens brasileiros foi o acesso a alimentos de qualidade (70,1%) e em quarto
ter um governo honesto e atuante (63,5%), demanda que, em nível mundial, fica
na quinta colocação.
Curiosamente, a
melhoria nos transportes e estradas, citada por 40,9% dos jovens como uma
prioridade, foi a demanda que deu início à série de protestos. No mundo, esse
tópico é apenas a 15ª prioridade entre as 16 possibilidades.
Tão comum a esses levantes populares é a difusão das informações via
redes sociais, não sendo um fenômeno apenas brasileiro, pois o mundo tem
assistido nos últimos tempos uma grande quantidade de protestos e muitos desses
oportunizados pela Internet.
Compreendendo os movimentos sociais: Interesses e insatisfações
Comum a todos os autores
consultados é que, em linhas gerais, os movimentos sociais giram em torno de
dois motivos básicos: defender interesses e manifestar insatisfação. Por mais
variada que seja a pauta de discussão, por mais objetiva ou abrangente que
ecoem as reivindicações, o cerne dos protestos serão, quase sempre, ou um ou os
dois motivos juntos.
Segundo
SOUZA(1997), as análises Históricas dos movimentos sociais no Brasil
revelam forte enfoque teórico oriundo do marxismo, cada um com sua pauta de
reivindicação específica. No entanto, todos expressavam as más condições
econômicas e sociais presentes em nossa sociedade. Quando se expressavam no espaço
urbano possuíam um leque amplo de temáticas como por exemplo, as lutas por
escola pública, por creches, pela moradia, por transporte, saúde, saneamento
básico etc. No meio rural, a diversidade de temáticas expressou-se nos
movimentos de bóias-frias (das regiões cafeeiras, citricultoras e canavieiras,
principalmente), de posseiros, sem-terra, arrendatários e pequenos
proprietários.
Desde o inicio da sociedade moderna, os movimentos sociais sempre
representaram as tendências de mudanças, marcando geralmente um período de
micro ou macro ruptura com formas antigas de poder. Micro quando ocorrem
mudanças apenas no interior de certas estruturas, sem substanciais alterações
no poder dominante e Macro quando elas rompem com o poder, destituindo-o.
Perpassando
pelos movimentos mais marcantes da História de nosso país, SOUZA (1997) pontua:
Em meados de 1950: os movimentos nos
espaços rural e urbano adquiriram visibilidade através da realização de
manifestações em espaços públicos (rodovias, praças, etc.). Os movimentos
populares urbanos foram impulsionados pelas Sociedades Amigos de Bairro - SABs
- e pelas Comunidades Eclesiais de Base - CEBs.
Nos
anos 1960 e 1970: mesmo diante de forte repressão policial, os movimentos não
se calaram. Havia reivindicações por educação, moradia e pelo voto direto.
Em
1980: destacaram-se as manifestações sociais conhecidas como "Diretas
Já" e pelos “Caras Pintadas” que foram as ruas lutar pelo impeachment do Presidente Collor.
Em
1990: o MST e as ONGs tiveram destaque, ao lado de outros sujeitos coletivos,
tais como os movimentos sindicais de professores, dos bancários etc.
“Concomitante
às ações coletivas que tocam nos problemas existentes no planeta (violência,
por exemplo), há a presença de ações coletivas que denunciam a concentração de
terra, ao mesmo tempo que apontam propostas para a geração de empregos no
campo, a exemplo do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST); ações
coletivas que denunciam o arrocho salarial (greve de professores e de operários
de indústrias automobilísticas); ações coletivas que denunciam a depredação
ambiental e a poluição dos rios e oceanos (lixo doméstico, acidentes com navios
petroleiros, lixo industrial); ações coletivas que têm espaço urbano como locus
para a visibilidade da denúncia, reivindicação ou proposição de alternativas”.
O sociólogo e professor da Universidade Federal de Goiás, Pedro Célio, relata
que com o crescimento das cidades, veio também grandes mudanças nem sempre
abrangidas pelo consenso dos interesses dominantes. Motivando grupos
específicos a manifestar suas expectativas e inconformismos com a intenção de
também serem considerados legítimos na esfera pública. Dessa forma, as
manifestações ocorrem por que a sociedade precisa funcionar atendendo
interesses, geralmente antagônicos, e isso faz com que grupos se sintam menos
prestigiados e passem a reivindicar direitos que acreditam ter-lhes sido
tirados.
“Na origem da vida moderna, os movimentos
sociais de mais repercussão envolviam quase sempre os conflitos de trabalho e
capital”, afirma Pedro Célio. As reivindicações giravam em torno de baixos
salários, carga horária excessiva, exploração de mão de obra e afins. “Depois
de certo tempo, passamos a ter uma gama bem mais ampliada de entidades
excluídas do consenso dominante, que geram mais protestos”.
Dessa maneira,
aparecem movimentos de todos os tipos e gêneros, organizados por grupos que
sentem que seus anseios não são atendidos pelo poder dominante, como o
movimento feminista, o LGBT em pró do respeito a homo afetividade, os negros contra
o racismo, uma comunidade buscando infraestrutura básica, os usuários do
transporte coletivo, os artistas, os funcionários públicos, os professores, e
todos quantos se sentirem excluídos.
Revisando a
literatura sobre o assunto, em específico GADOTTI (1998) constatamos que um erro comum quando se trata de movimentos sociais, é
achar que a sociedade é quem se organiza em prol de um ou mais objetivos. Na
verdade quem se organiza são grupos distintos, pois por mais ampla que seja uma
reivindicação, certamente ela não englobará todas as esferas da sociedade. É
preciso perceber que os interesses de um grupo da classe trabalhadora não são
os mesmos dos empresários. As insatisfações dos produtores rurais não são
iguais às dos ambientalistas. Então, como a sociedade é formada por grupos de
interesses antagônicos, por mais vasto que seja a conveniência de uma
reclamação, ela não tem relevância para todos.
As passeatas, manifestações nas ruas,
difusão de mensagens via internet, ocupação de prédios públicos, greves,
marchas entre outros, são características da ação de um movimento social. Nas manifestações brasileiras, as demandas conclamadas pelos grupos que
protestam, estão ressoando para um grande número de pessoas e mesmo que as
reivindicações não abranjam toda a sociedade, os interesses em questão são
comuns para uma maioria. O que justifica a tamanha proporção da participação
popular.
Bem interessante é a
observação relatada pelo prof. Pedro Célio de que é comum e estratégico para os
grupos organizados pela luta social, incorporar as necessidades de outros
grupos para conseguirem mais adeptos, e se expandirem. “Qualquer movimento, na
sua origem, tem um motivo específico. Mas à medida que eles traduzem os desejos
de outros grupos, esses movimentos expandem sua área discursiva, abrangendo
interesses e necessidades de cunho diverso, ficando mais forte”.
A ação nas ruas é o que dá visibilidade
ao movimento social, principalmente quando este é coberto por toda mídia. Ainda que alguns não possam estar fisicamente em “praça pública”, digitalmente,
através da internet e mais especificamente por meio das redes sociais é
possível concatenar os interesses e insatisfações, ou seja, ser ainda assim,
atuante nos manifestos.
Quebra de paradigmas nos novos movimentos sociais brasileiro
O surpreendente desses novos movimentos e que talvez
marque numa nova era de protestos são: a união dos movimentos, a
inexistência de uma liderança única e a difusão da informação através das redes
sociais.
As passeatas que
aconteceram em todo o Brasil tiveram, em comum, a participação de muitos grupos
de indivíduos reivindicando questões diferentes das propostas pela organização
inicial. Foi possível notar a união de outros grupos já articulados. O que
podemos observar foram reuniões com representantes de vários outros grupos a
fim de traçarem metas mais bem definidas, e que englobasse reivindicações
comuns a todos.
Vimos curiosamente a
ausência de um líder específico para representar os grupos. A história dos
movimentos sociais sempre traz consigo a figura de uma pessoa que estava à
frente, estipulando metas e ditando as ordens. Dessa vez foi diferente. Os
grupos se assumiam como independente e sem liderança.
A falta de um líder
poderia ser, para muitos estudiosos, um dos principais motivos para levar uma
empreitada desse tamanho a sucumbir em sua própria fragilidade de força, porém,
ironicamente, o que se notou é que essa característica deu mais poder ao
movimento. As manifestações ganharam mais vigor por se estruturarem em desejos
espontâneos, onde não havia um líder manipulador tentando emplacar alguma causa
que beneficiasse apenas pessoas específicas. O que se viu foi uma rede de
indivíduos, onde cada um era seu próprio líder, com pautas diversas, abertos
para todos que quisessem opinar.
Toda essa dinâmica só
foi possível dada à comunicação via Internet. De forma que as Redes de
Computadores, mais especificamente as redes sociais, tornaram-se ferramentas
agregadoras entre os manifestantes, sendo um local usado para discussão de
pautas, chamamento popular e definição das reivindicações de forma mais ágil.
Logicamente que nas
redes sociais o ativismo não é tão engajado como na vida real. O que vimos é
que a internet foi o principal espaço para discussão de idéias, e que, a partir
daí, com tantos problemas visualizados, as pessoas passaram a exercitar mais
sua cidadania e sinalizam adentrarem cada vez mais ao processo de politização,
defendendo idéias e ações, a favor de uma opinião ou alguém e contra outros. Talvez
cansados de tanta discussão, os brasileiros foram a luta e ao irem a praça
pública, compreenderam que a internet deve ser utilizada como sendo um meio e
não um fim. Que ela de fato é um grande fórum de debates, mas a rua é o grande
palco que privilegia a prática
efetiva de transformação da realidade.
A Pressão Popular e Algumas Conquistas
A primeira pauta, sobre o aumento das tarifas de transporte coletivo, já
obteve ganho com redução ou retorno para os valores praticados anteriormente em
várias cidades do país. Restando em algumas capitais a conquista do “Passe
Livre” e a melhoria da qualidade.
Outra reivindicação atendida
com sucesso, foi a derrubada da aprovação, já quase certa, da Proposta de
Emenda Constitucional (PEC) 37, que tratava das competências das Polícias e do
Ministério Público em relação aos inquéritos policiais. A população não apoiou
o texto da emenda e se manifestou contra sua aprovação, e foi o que aconteceu,
mesmo depois de a maioria dos deputados terem se mostrado favoráveis a ela.
O Governo Federal
sinaliza pra um grande plano efetivo para sair do colapso da saúde. Logicamente
é um problema muito grave no Brasil e necessita de mais aprofundamento nas
discussões, o que tem levado a classe medica, até então considerada uma das
elites das profissões de formação universitária, para as ruas em forma de
passeata, buscando não somente a defesa da classe, como a construção de modelos
de gestão e melhorias de programas de saúde pública.
Na Educação as
reivindicações mais emergentes são as mesmas desde a década de 80. Contudo a
pressão popular transmite a mensagem que mesmo que tenhamos evoluído na pasta
educação, a carência de nossa população é imensa, de forma que essas ações
estão longe de serem satisfatórias e que a pasta necessita de mudanças imediatas
e não que venham “a conta gotas”. Bem relevantes são os links que os jovens tem
demonstrado fazer, entre a falta de um sistema de educação de excelência com
outros problemas tais como: o crescimento da violência, da desigualdade, do
preconceito e do desemprego.
Conclusão
Os movimentos sociais são sinais de
maturidade social que podem provocar impactos conjunturais e estruturais, em
maior ou menor grau, dependendo de sua organização e das relações de forças
estabelecidas com o Estado e com os demais atores de uma sociedade. Historicamente os protestos têm o poder de mudar os rumos de uma nação,
e mesmo não ocorrendo grandes mudanças sociais, a manifestação em ultima
analise, contribui para que a população perceba as insatisfações e absorvam uma
cultura de reivindicações. Talvez, daqui para frente os jovens que vivenciaram
esses protestos possam valorizar e contribuir mais na construção do saber
sociológico, principalmente
quando percebem a relação direta com a sociedade em que vivem.
O país vivenciou a rebeldia de um pré-adolescente que
passa a contestar os paradigmas autoritários e reprimistas de seus tutores,
para evoluir na construção do seu próprio espaço. Jovens estudantes entram em contanto direto
com vivencias de insatisfações de qualidade de vida, quiçá de teorias sociológicas e criam oportunidades para a
formação de atitudes e comportamentos mais sensíveis, a medida que passam a
enxergar os diversos mundos e/ou as diversas realidades sociais.
O primeiro objetivo a
ser alcançado em movimento social é o reconhecimento da expressividade e
legitimidade do grupo protestante, através da oferta de acessibilidade para
debate por parte dos poderes constituídos.
Essa ação por si só não garante o atendimento das reivindicações na sua
amplitude, sendo necessário, o próximo passo de desenvolver as articulações políticas com o poder, para que se poça conquistar os
direitos de forma expansiva.
Contudo, como
articular com o Estado sem que elejamos lideres para estabelecer esse dialogo?
A resposta é que teremos alguns “caronistas políticos” nesse processo, bem como
também teremos pessoas sérias que comprarão a briga, dando a cara a bater,
podendo se constituir como heróis anônimos ou não. Então dessa forma, mesmo que
tenhamos as tão almejadas reformas políticas, tão clamadas nas ruas, é provável
que para nossos futuros lideres no caminho do poder elegido, a História se
repita.
Referências
Bibliográficas
BORGES, Dr. Pedro Célio Alves..Periodico
Tribuna do Planalto.. Sociólogo e professor da Universidade Federal de Goiás. http://tribunadoplanalto.com.br.
GADOTTI, Moacir. Educação e poder. (Cortez, 1988), Paulo Freire: Uma
bibliografia (Cortez, 1996),
IPEA - Instituto de Pesquisa Econômica. www.ipea.gov.br
Portal da Educação. http://www.portaldaeducacao.com.br
SOUZA, Maria Antônia. Movimentos
sociais no Brasil contemporâneo: participação e possibilidades no contexto das
práticas democráticas. Dissertação de Mestrado em Educação. Parana, 1997.
Universidade Tuiuti de Curitiba, PR.
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